Desentendimentos recentes entre o governo Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), evidenciaram para o Palácio do Planalto a necessidade de ter um aliado político no comando do Congresso. Isso ressaltou também as complexidades envolvidas ao antagonizar determinados parlamentares, principalmente aqueles que têm o poder de impulsionar projetos importantes para o Executivo ou, ao contrário, comprometer a administração vigente.
Com a polarização politica em alta e a grande quantidade de expoentes de direita eleitos, a dinâmica se torna ainda mais crucial em vista da luta pelo cargo de liderança do Legislativo, prevista para o dia 1º de fevereiro de 2027. As alianças que emergirem entre os candidatos poderão refletir no Senado os confrontos que levaram Lula a conquistar um quarto mandato ao derrotar Flávio Bolsonaro. O jogo já começou, com manobras e negociações em curso.
O candidato à reeleição, Alcolumbre, que já conta com o apoio informal do Palácio do Planalto, tem buscado também contato com parlamentares do campo oposicionista. Ele mira especialmente em políticos recém-eleitos que enfrentam processos judiciais pendentes, prometendo uma proteção na instância do Supremo Tribunal Federal (STF) como forma de constituir uma base de apoio.
Quase metade da bancada de direita está citada em investigações, incluindo os inquéritos das fake news e das milícias digitais, o que torna o cenário de traições possível e até esperado. A votação para a Presidência do Senado será secreta, e o instinto de sobrevivência dos senadores pode alterar o rumo dessa disputa.
Outro argumento que Alcolumbre utiliza para angariar votos entre os senadores mais conservadores é o risco de a derrota de Rogério Marinho (PL-RN) ou Tereza Cristina (PP-MS), ambos do espectro bolsonarista, provocar o isolamento da bancada conservadora na Casa. As consequências do ostracismo podem ser significativas, já que, em uma possível vitória de Alcolumbre, aliados de Marinho e Tereza poderiam ser excluídos de cargos na Mesa Diretora e na presidência de comissões, espaços fundamentais que garantem visibilidade e poder de articulação política.
Em 2023, uma situação semelhante ocorreu, quando Marinho disputou a Presidência contra Rodrigo Pacheco. A derrota significou que o PL ficou sem cadeira na Mesa e perdeu controle sobre comissões estratégicas, que foram repartidas entre partidos como o MDB, PT, União Brasil e PSB.
Alcolumbre também anunciou que, como parte de um acordo para reeleição, poderia propor um perdão ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Contudo, essa proposta depende de fatores alheios ao controle do senador. Um indulto, que teria que ser assinado por Lula, parece um acontecimento improvável, dado que tal medida poderia revitalizar o bolsonarismo.
Embora a responsabilidade pela anistia a quem foi condenado por delitos políticos recaia formalmente sobre o Congresso, isso se choca com uma resistência que parece intransponível. Pelo menos seis dos atuais dez ministros do Supremo Tribunal Federal afirmam que é inconstitucional conceder o benefício a condenados por crimes contra o Estado Democrático, como é o caso de Bolsonaro.
















