“Não temos nenhuma chance contra isso”. A frase já entrou para o folclore da indústria automobilística. Foi dita pelo executivo-chefe da Honda, Toshihiro Mabe, depois de visitar uma montadora altamente automatizada em Xangai. Resume o estado de prostração de todos os produtores de automóveis do mundo diante da voracidade da competição da China.
Outro dado para ter em mente: a China tem cerca de 100 fabricantes que produzem três lançamentos por dia. Repetindo, por dia. Preços baixos, modelos que clonam os mais bem-sucedidos mundialmente e vantagem incomparável na tecnologia de elétricos e híbridos fazem o sucesso da fórmula chinesa. No Brasil, com todas as barreiras fiscais, foram quase 300 mil veículos importados no primeiro semestre, com consequências inesperadas, como a queda nos preços dos carros usados.
Se dá para ter um chinês novo por um preço competitivo, por que comprar um produto já rodado?
Quando não produzem seus próprios modelos, os chineses compram marcas estrangeiras. Vai pegar um famoso táxi preto de Londres? Agora são fabricados pela Geely. Um maciço e confiável Volvo, a marca símbolo da Suécia? Geely também. Um elegante esportivo da Lotus Cars? Idem.
Sem falar em participações na Mercedes-Benz e até nos antológicos produtos sob a marca Aston Martin, o carro de James Bond.
‘BIRKIN FALSIFICADA’
O jornal The Telegraph publicou recentemente um artigo parodiando o esnobismo inglês ao comparar as diferenças entre um “verdadeiro” Evoque da Land Rover e seu clone chinês da Jaeeco. “É como usar uma bolsa Birkin da Hermès falsificada”, sibilou o autor, reconhecendo que o similar chinês custa quase a metade dos mais de 100 mil dólares do original mais luxuoso.
Ironia das ironias: embora sejam fabricados na Inglaterra, com os requintes desenvolvidos desde 1948 que os tornaram os favoritos das classes superiores, os modelos da Jaguar Land Rover agora pertencem à indiana Tata Motors. É uma exceção num universo dominado por nomes como BYD, Nio, Chery, Xpeng, Xiaomi.
Segundo dados da Agência Internacional de Energia citados pela BBC, o domínio chinês é de todo o ciclo, tornando cerca de 30% mais barato produzir um utilitário elétrico na China do que em países desenvolvidos devido, principalmente, ao custo menor das baterias. É o resultado de décadas de investimentos promovidos pelo Estado, dentro do modelo chinês de capitalismo híbrido. A capacidade de trabalho e o avanço tecnológico da China não podem ser subestimados, mas a torneira do dinheiro para os produtores também é um fator fundamental.
Em muitos aspectos da economia e da alta tecnologia, a predominância mundial ainda é dos Estados Unidos (que estão escapando do ataque chinês devido à tarifa de 100% implantada por Donald Trump). Mas o mundo que anda sobre quatro rodas hoje é, inevitavelmente, chinês. Dos 37 milhões de carros fabricados no mundo até setembro, 62%, ou 23 milhões, foram chineses. Só mesmo o Tesla voador de Elon Musk para concorrer. Ou será que clones baratos logo aparecerão no mercado?
















